Mar de mim

Começamos aqui uma jornada, ou uma navegada, melhor ainda, uma caminhada pela praia do Mar de Mim, este oceano que me faz por dentro e que aqui transborda em idéias, emoções, dores, amores e humores. Que você se banhe no Mar de Mim, ou pelo menos contemple as ondas que me quebram, as marés que me arrastam e as brisas que me sopram. E que isso seja bom para você.

terça-feira, outubro 10, 2006

Com Chet sofrer é mais gostoso

A madrugada avança, a noite vai se indo. E aí? Não mudou nada. “Inútil dormir que a dor não passa”. Tampouco ficar acordado. Talvez esse seja o momento mais comum aos mortais que gostam de escrever e passam momentos de solidão, tristeza, algum desespero ou toda a loucura de viver uma madrugada que avança, a noite que se vai e nada muda a não ser as estrelas lá encima. Sinto-me humanamente igual a todos e tantos quantos já enfrentaram essa “insônia do tamanho do mundo”. É verdade que nem todos nem tantos partiram para essa batalha ouvindo algo como Chet Baker tocando e cantando I fall in love too easily. O que é bom, porque muitos talvez não suportassem. O que também é mau, porque muitos talvez suportassem e partissem para ouvir Misty ou ainda Everything happens to me, na versão mais longa com Chet e o quarteto de Charlie Haden. E se chegassem a esse momento atingiriam o nirvana da angústia, da dor da madrugada que avança. E paralelo à grande dor sentiriam, quem sabe, como eu, uma profunda piedade dos que dividem essas horas com todo o lixo que se produziu e se produz para cantar e chorar o amor/desamor, a solidão – coisas como Bruno e Marroni, os gigolôs da hora do mau gosto que impera, ou mesmo Renato Russo, poetinha menor que escreveu versinhos bobinhos para adolescentes em crise eterna com os pais e o mundo, mesmo que estejam passando dos 40. Ah!, que coisa boa sofrer ouvindo Chet. Sade? Sabe, dá até um orgulho, uma coisa boa mesmo, assim do tipo puxa, pelo menos nisso eles ainda não botaram as mãos, ou os ouvidos, porque daí, logo, botariam os pés e viraria um popizinho dançante gravado pelo Latino ou uma versão pseudamente cult de Ivete Sangalo ou Daniela Mercuri, ou... sei lá são todas iguais ... parece que desceram do mesmo caminhão de som ou saíram do mesmo programa dominical da Globo. O que quero dizer é que a dor não pode ser a mesma. Quem chora ouvindo “tô fazendo amor com outra pessoa”, não pode sofrer igual a quem chora escutando “como ir embora se na bagunça das nossas noites eternas, já confundimos tanto as nossas pernas, diz com pernas eu devo ir”, do Chico. Sentimento se educa e nossa juventude, de todas as idades, porque todos pararam nos 20 anos mentais, anda tão coitada, mas tão coitada, tão educada dentro do igual e do medíocre - que melhor seria dizer tão deseducada -, tão sem ídolos que valham a pena, tão sem referências para tudo que não seja descartável, fútil, do mesmo, que dói vê-los sarados, fashion, bêbados e... se achando. Ei cara!, até pra sofrer existe beleza, até no sofrer existe estética, e a história da arte, desde os gregos, mostra isso.
Vai Chet, acaba comigo que eu acabo com eles! Estou naqueles momentos em que como disse Drummond, “não há nada no mundo que justifique o ponto de exclamação”, mas até me animei e coloquei uns aí atrás, mais por raiva do que por espanto.
Estou mais para Augusto dos Anjos no meu sofrer/nojo do amor:

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Estou mais para Pessoa no meu/seu desespero:

Não há na travessa achada o número da porta que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido. Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota. Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados. Até a vida só desejada me farta - até essa vida...


Se Pessoa e Anjos tivessem ouvido Chet, beberiam mais, sem dúvida, mas escreveriam mais também, e viveriam mais, não no sentido do tempo, mas no da alma.
Por isso sofro mais nessa madrugada que avança e a noite vai se indo. A beleza toca a dor, que toca Chet, que toca e me toca. Percebo agora que algo mudou, sim. Talvez esse seja o momento que vivo mais incomum aos mortais que gostam de escrever e passam momentos de solidão, tristeza, desespero e loucura. Sofro quase com gozo, quase em transe. Me vem Leminski: “Um homem com uma dor é muito mais elegante”. Sei que não sou melhor do que ninguém, mas nesse momento, com essa música e com essa dor que carrego, me sinto. Desculpe, amanhã eu volto a me achar o último da fila. Hoje, Chet me deu dignidade e superioridade na dor. Coisa de beleza. Me deu a diferença nesse mundo de iguais. A melhor arte me deu uma melhor dor, se me entende. Com Chet, sofrer é mais gostoso. Se você não entendeu, o que me conforta é que você me leu até aqui – o que é indicio de salvação. Não por mim, mas por você, entende?